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Arquivo Leisner

Das Leisner-Archiv (DEUTSCH)
El Archivo Leisner (ESPAÑOL)

AS INVESTIGAÇÕES DE GEORG E VERA LEISNER E A GÉNESE DO ARQUIVO LEISNER

Georg e Vera Leisner, arqueólogos de nacionalidade alemã, constituem autores de referência para o estudo do Megalitismo e para a investigação da História da Arqueologia Pré-histórica à escala peninsular. O início das suas pesquisas na Península Ibérica remonta a 1933, tendo-se mantido até ao final da vida do casal de investigadores (Georg Leisner, Kiel - 1870 – Estugarda – 1957; Vera Leisner – Nova Iorque – 1885; Hamburgo – 1972).

A memória destas pesquisas encontra-se bem documentada na vasta obra publicada – a qual poderá ser consultada na sua grande maioria na BA - Biblioteca de Arqueologia – bem como num importante espólio documental, denominado como «Arquivo Leisner» e que se encontra igualmente disponível para consulta on-line em BA- Biblioteca de Arqueologia – Arquivo Leisner - Acervo Epistolar. Este acervo compreende cerca de 49.500 documentos – perto de 19.000 documentos escritos e 30.500 documentos gráficos e fotográficos – reunido por Georg Leisner (1870-1957) e Vera Leisner (1885-1972), durante as suas pesquisas na Península Ibérica.

Vera Leisner doou esta documentação ao Instituto Arqueológico Alemão de Madrid (Deutsches Archäologisches Institut, Abteilung Madrid – DAI) com a menção explícita da sua manutenção em território português, como agradecimento pelo apoio que lhes foi concedido desde a chegada do casal a Portugal em plena Segunda Guerra Mundial até 1972. Este acervo manteve-se na subdelegação do Instituto Arqueológico Alemão em Lisboa até ao seu encerramento em 1999, tendo então sido cedido ao Estado Português em regime de comodato (em conjunto com a biblioteca dessa subdelegação), onde se encontra integrado na atual Biblioteca de Arqueologia (BA) sita no Palácio da Ajuda.

 

O PROGRAMA DE RECUPERAÇÃO, TRATAMENTO E ORGANIZAÇÃO DE ACERVOS DOCUMENTAIS (2012-2013)

No âmbito do programa Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais da Fundação Calouste Gulbenkian foi submetida em 2012, pela Direção Geral de Património Cultural – DGPC –, uma candidatura para tratamento do Arquivo Leisner, tendo a mesma merecido o apoio financeiro da referida Fundação.

Considerando o interesse científico e arquivístico do acervo, foi então concebido um plano faseado de inventário, conservação, digitalização e estudo do mesmo.

O principal objetivo deste projeto centrou-se no tratamento e digitalização do acervo epistolar do Arquivo, de forma a possibilitar a sua disponibilização ao público através das páginas electrónicas das instituições com ele relacionadas – DGPC e DAI. No âmbito da sua execução foi ainda previsto o arrolamento integral do fundo documental, a higienização do mesmo, pequenas intervenções de restauro e o acondicionamento adequado do espólio.

Ainda no âmbito deste projeto, e por forma a possibilitar a sua concretização, a DGPC e o DAI celebraram um protocolo de colaboração que aprova o Regulamento do Arquivo Leisner.

A equipa do projeto Leisner integrou arqueólogos, bibliotecários, arquivista e técnicos de arqueologia da DGPC e DAI, tendo sido no entanto contratualizados serviços de consultadoria em Arquivo e serviços de digitalização externamente a estas entidades.

 

O ACERVO EPISTOLAR

Face ao volume documental do Arquivo Leisner concebeu-se o projeto em duas escalas de atuação: uma intervenção global sobre o arquivo e a realização de um programa específico para o acervo epistolar.

A correspondência será provavelmente a área mais desconhecida de todo o Arquivo, já que na vasta bibliografia editada pelo casal Leisner terão sido publicadas grande parte das fotografias e desenhos que integram o Arquivo Leisner.

O acervo epistolar integra um conjunto de cerca de 4000 documentos, organizados arquivisticamente ao nível das séries numa folha de recolha bibliográfica em software Bibliobase. Todos os documentos foram inventariados, marcados e digitalizados.

Com o decorrer do tratamento documental deste acervo foi possível elaborar uma descrição genérica do seu espólio. Assim:

1. Idiomas. A maior parte das cartas encontra-se em língua alemã e portuguesa, existindo ainda documentos em castelhano, inglês e francês. Atendendo ao elevado número de cartas redigidas em língua alemã - algumas delas em escrita Sütterlin -, encontra-se em estudo, no âmbito da parceria com o DAI de Madrid, a possibilidade de tradução destes documentos de forma a que a esta fique futuramente disponível na consulta on-line, aproximando-se mais do seu público alvo em Portugal.

2. Países emissores/recetores. O vasto leque de relações científicas de Georg e Vera Leisner é evidenciado pela diversidade de países representados no Arquivo Leisner.

3. Instituições emissoras/recetoras. Ao nível de emissores e recetores há que distinguir dois grupos de documentos, os de natureza pessoal e os de natureza profissional/científica. No momento presente apenas é segura uma abordagem considerando os documentos em língua não alemã, deixando em aberto a possibilidade de se virem a verificar algumas alterações nesta distribuição depois de um futuro trabalho de tradução dessa parte do acervo. Após esta ressalva que importava fazer, verifica-se que, no caso dos documentos em língua não alemã, são escassas as cartas de natureza pessoal, encontrando-se em maioria os documentos de natureza profissional/científica.

Considerando o conjunto global de instituições emissoras/recetoras podemos evidenciar dois grandes conjuntos de instituições: as portuguesas e as alemãs.

No caso de Portugal, é evidente o trabalho de intensa pesquisa efetuado por Georg e Vera Leisner, estando presentes séries de correspondência com os principais museus nacionais, nomeadamente o então Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia (atual MNA) a par de museus regionais como o Museu Tavares Proença Júnior (Castelo Branco) e de pequenos museus locais como o Museu Arqueológico de Sesimbra.

A correspondência com a Junta Nacional de Educação e o Instituto de Alta Cultura reflete o apoio que as instituições portuguesas concederam às escavações arqueológicas e subsequentes estudos do casal, também secundadas por outros organismos nacionais como a Fundação Calouste Gulbenkian ou a Junta de Turismo de Cascais. Assim, pode concluir-se que estão presentes neste acervo praticamente todas as principais instituições portuguesas com atividade arqueológica (universidades, sociedades cientificas, associações…), facto que evidencia a forte interligação dos Leisner com a comunidade cientifica nacional.

Alguma da correspondência do acervo está relacionada com assuntos pessoais de Georg e Vera Leisner, quer com o Ministério das Finanças quer com a Polícia de Intervenção e Defesa do Estado – PIDE.

No caso da Alemanha destaca-se a correspondência com o Deutsches Archäologisches Institut, instituição com a qual mantiveram um vínculo laboral ao longo de toda a carreira científica. A par desta está também documentada a troca de correspondência com universidades, nomeadamente a Universidade de Marburg - onde Georg e Vera Leisner estudaram -, instituições de investigação, como o Römisch-Germanisch Kommission ou editoras como a Walter de Gruyter.

A correspondência com instituições de outras nacionalidades comprova a notoriedade dos Leisner ao nível internacional, o que é refletido pelas cartas trocadas com universidades como por exemplo a Universidade de Cambridge ou a Universidade de Edinbergh ou museus, como é o caso do Museu do Louvre ou do Museu Bernisches Historisches. Muitas destas cartas versam sobre o intercâmbio de publicações dada a dificuldade em obter bibliografia atualizada em território português, consubstanciando-se assim numa génese do que viria a ser a futura Biblioteca do Instituto Arqueológico Alemão em Lisboa – a atual BA.

Verifica-se ainda a presença de correspondência com revistas da especialidade, por exemplo a revista Antiquity Journal, editoras, como a Thames and Hudson ou institutos e centros de Investigação, nomeadamente o Instituto Español de Prehistoria.

4. Personalidades (emissão e receção). O conjunto de personalidades que fazia parte da rede científica do casal Leisner é passível de ser verificada quer nas cartas por eles recebidas quer nas cópias das que terão sido por eles expedidas – facto este que podemos considerar como uma característica das suas práticas epistolares.

A análise da correspondência permitiu concluir que existem duas fases neste espólio: uma primeira até à morte de Georg Leisner (1957), na qual a correspondência científica e profissional era efetuada e recebida quase exclusivamente por seu intermédio e uma segunda maioritariamente constituída por documentação de e para Vera Leisner. Na primeira fase existem interessantes instantâneos da Europa em guerra, incluindo descrições do bombardeamento da residência familiar do casal em Munique. Será na segunda fase que se aprofundam os contatos com arqueólogos e instituições nacionais. Em ambas as fases verifica-se a existência de documentação na qual o casal é de alguma forma referido sem que, no entanto, seja o recetor ou emissor da mesma.

Estão representados neste acervo a generalidade dos autores de arqueologia pré-histórica coevos.

Em Portugal podemos referir Hipólito da Costa Cabaço, Luís de Albuquerque, Octávio da Veiga Ferreira, José Formosinho, José Pires Gonçalves, Manuel Heleno, J. L. Saavedra Machado, Afonso do Paço, Leonel Ribeiro e Abel Viana.

A escala peninsular na abordagem ao Megalitismo está refletida no abundante número de arqueólogos espanhóis presentes nestes documentos, nomeadamente Martín Almagro Basch, Florentino Alonso-Cuevillas, António Beltrán Martínez, Pedro Bosch-Gimpera, Carlos Cerdán Márquez, Emeterio Cuadrado, Juan Maluquer de Motes, Luís Monteagudo ou António García y Bellido.

Fora da Península Ibérica, interessa destacar a presença de autores de referência mundial como Robert Braidwood, Vere Gordon Childe, Glyn Daniel, Pierre Giot, Stuart Piggott ou Mortimer Wheeler.

Na Alemanha e do Instituto Arqueológico Alemão de Madrid, devemos nomear, entre outros, os seguintes investigadores como parte integrante da rede de contatos do casal Leisner: Hermanfrid Schubart, Helmut Schlunk, Edward Sangmeister, Klaus Parlasca, Philine Kalb e Wilhelm Grünhagen.

Entre a correspondência pessoal são particularmente importantes as cartas trocadas entre Vera Leisner a sua família – a família De la Camps.

5. Sítios arqueológicos. A maioria dos sítios arqueológicos mencionados situam-se em território português, estando prevista a sua interligação com os sítios arqueológicos inventariados no Sistema de Informação Endovélico.

Os sítios elencados tratam-se maioritariamente de monumentos megalíticos, nomeadamente do Grupo Megalítico de Reguengos de Monsaraz, de Cascais e das Beiras. Existem ainda importantes referências a sítios do Sul de Espanha como Los Millares e os monumentos megalíticos de Huelva.

 

CRITÉRIOS DE ORGANIZAÇÃO E SUGESTÕES DE PESQUISA

Com a conclusão da primeira fase de abordagem ao Arquivo Leisner é disponibilizada para consulta on-line a catalogação e disponibilização das digitalizações do seu Acervo Epistolar, encontrando-se em curso o arrolamento do fundo geral.

De forma a poder compreender a organização da base de dados e a melhor orientar a sua pesquisa sugerimos que consulte o normativo elaborado para o efeito.

Para conhecer integralmente o projeto poderá consultar o Relatório Final.

BIOGRAFIAS 

No âmbito de uma série de pequenas exposições bibliográficas que estão em curso na BA, nas quais se pretende destacar a obra dos autores com bibliografia no acervo da  biblioteca que têm relação com o acervo epistolar de Georg e Vera Leisner, também ele depositado na biblioteca, ficam disponíveis ao público as pequenas biografias que se vão elaborando de cada um desses autores. Assim, sugere-se a consulta do Arquivo Leisner, onde se encontra a correspondência trocada entre cada um dos autores destacados e  o Casal Leisner, assim como a leitura das referidas  biografias